quarta-feira, 18 de setembro de 2013

saudade

é a pequena morte
que a distância anuncia
perversa. o amor
calejado nos calcanhares
can
sa
dos
de longos c a m i n h o s
vazios.
o pesar
dos passos dsecmpaonahaods
agora mais tortos
e dói.
por fazer notar – com um beliscão funesto no peito –
que continuamos vivos pra caralho
apesar de tudo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

guel arraes não tá com nada

para registrar: o dia em que passei a tarde conversando com Ariano Suassuna, no auge de seus 85 anos, em sua casa de veraneio, na praia de Candeias. Todo mês de janeiro, vai para lá descansar da agenda atribulada. A idade avança, mas não leva consigo a velhice. O escritor não estava de óculos, não precisa  fazer conchinhas nos ouvidos e constrói pensamentos com a memória de seus autos todos. "Olha o alemão me atacando", fala brincando sobre o tal Alzheimer, ao esquecer uma palavra qualquer. A entrevista, bem no meio das férias, uma sorte. Só veio a cabo porque o personagem-tema é especial demais: Mestre Meia Noite. 

Para explicar o encontro, relembrou a história do balé clássico, que se espalhou pelo mundo após a parceria do italiano naturalizado francês Jean-Baptiste Lully com Luís XIV, na França do século 17. O nome de batismo do compositor e dançarino era Giovanni Battista Lulli, antes da infância em terras francesas.

Enquanto secretário de cultura da capital pernambucana, quis criar dois espetáculos: um para fundir a dança popular brasileira ao balé clássico; o outro para unir nossas expressões à dança contemporânea. 

Para o primeiro, juntou um compositor do século 18, chamado Luís Álvares Pinto, a músicas de Capiba para a Missa Armorial. As composições eram cantadas em latim, mas embaladas com músicas populares, em ritmo de frevo, coco e maracatu. O espetáculo se chamava "Pernambuco do Barroco ao Armorial".

No segundo, estendeu o convite a André Madureira, fundador do Balé Popular do Recife, batizado por Ariano, em 1977. Foi quando decidiram agregar novas formas de expressão à dança popular. O Mestre Meia Noite, entre outros bailarinos convidados, foi recrutado para contribuir com a inserção da capoeira e do maracatu nação. Pedro Salustiano contribuiu com o Cavalo Marinho e maracatu rural; Jofre de Andrade era passista de frevo de rua. "Brincadeiras de um circo em decadência" passaram a ser encenadas no Circo da Onça Malhada, montado na Rua da Aurora.

Desde o final de 2011, o circo está em turnê pelo Brasil com a aula-espetáculo "Tributo a Capiba". O mestre de capoeira ganhou um solo, dançando o Choro nº 5 do compositor nascido em Surubim. A dança começa com o corpo do homem negro, magro, coberto por um manto muito grande, segurado por uma bailarina. E ele começa a dançar com os olhos, com o rosto, com os ombros, e a dança se espalha pelo corpo inteiro. "O Mestre Meia Noite interpretando esta música é um momento antológico da música pernambucana".

Os dois vão continuar trabalhando juntos na secretaria de Cultura do Estado até o final do mandato do governador Eduardo Campos. O próximo projeto é um espetáculo de música e dança - e, ainda não se sabe, canto. A inspiração é o disco Tríptico: No Reino da Ave dos Três Punhais, com violões do Quarteto Romançal e canto gregoriano adaptado por Antônio Madureira. Nas faixas, se reúnem as influências indígena (no toque dos encantados), portuguesa (no toque dos degradados) e africanas (no toque dos orixás). Ariano brinca que o título do álbum é tão bom que nem precisava de música. Tríptico também é  o nome que Samico deu a uma de suas gravuras.

O escritor relembra, no meio da conversa, as três versões para o cinema que fizeram do Auto da Compadecida; e continua tendo a primeira como sua favorita. Participou em toda a montagem do roteiro e na direção do filme de George Jonas, de 1968. No elenco, um Antônio Fagundes magro e dos cabelos pretos deu corpo a Chicó, a contragosto de Ariano. Na época, o ator Armando Bógus, hoje desconhecido, era mais famoso e acabou levando o papel de João Grilo. Uma Regina Duarte também moça é Maria, no Brejo da Madre de Deus. 

Uma cópia do DVD ficou rodando no quarto da casa de praia de Ariano, que comentava a construção das cenas, a atuação do elenco, o figurino desenhado por Francisco Brennand e o cenário de Lina Bo Bardi. A inspiração circense, que se faz presente até nos rudes trejeitos dos cangaceiros, é o que faz o autor se encantar pela película. "Vamos lá no quarto assistir ao filme, mas não conte pra ninguém", brinca. "Minha mulher não está em casa e não ia gostar nadinha de saber que eu levei uma menina pra lá".

*um obrigada ao jornalista e assessor Samarone Lima, que nos fez companhia e documentou toda a conversa, como é de seu costume, em sua filmadora de estimação.

sábado, 13 de outubro de 2012

Além do bem e do mal

Por ignorância, passei muito tempo defendendo sozinha a sabedoria que existe no sentimento. Tentando explicar a necessidade de incorporar o sentir ao pensar. Refutando toda poesia imaculada, toda filosofia pura. 

Hoje cedo, descobri Nietzsche (e é possível que descubra Foucault em breve) em Além do bem e do mal. Logo no primeiro capítulo (Preconceito dos Filósofos), me deparei com uma inquietação tão parecida com a minha, de negação de toda a busca incansável pela verdade, pela razão pura. A aceitação do erro, da ignorância e da incerteza como condição de vida. Uma valorização linda ao que é de instinto, de sentimento, de natureza, sem os quais é inconcebível a construção de pensamento possível. 

“É preciso colocar a maior parte do pensar consciente entre as funções do instinto” // “Admito também que existam puritanos fanáticos da consciência, os quais prefeririam um certo nada a um incerto qualquer coisa” // “Consideravam como maior triunfo tornarem-se donos dos sentidos, enredando seu turbilhão em pálidos, frios e cinzentos conceitos”.

Ao ler esses trechos, lembrei-me de um texto que havia escrito tempos atrás sobre sentir. E sobre como é absurda toda racionalidade livre de corpo. Toda essa filosofia que se baseia na necessidade de buscar verdades em algum lugar livre de desejo. Por que, no fim das contas, nos pergunta Nietzsche: de onde tiramos o conceito de pensar (que pressupõe que nos conhecemos tão profundamente a ponto de sabermos que tal pensar não é querer ou talvez sentir)? O que quer dizer claro? O que quer dizer esclarecido?

sábado, 8 de setembro de 2012

desafinado

o violão ali, encostado na parede.
ao relento da maresia de morar perto da praia.
um ré, outro lá e os dós desencontrados.
as cordas, enferrujadas, não descobrem mais os tons.
o timbre, arranhado, não desvela melodias.

continuamos a apertar as tarrachas; a forçar, até o limite, as fibras do nylon.
ceifamos o aço ao descascar de suas membranas.
e estouram, as cordas.
se partem, de tão esticadas e gastas.

nos falta o zelo de entoar o que, de cor, sabemos.
o cuidado (não o costume) de trocar o que desafinou; de ajustar as dissonâncias.
o afinco em preservar o instrumento,  e espanar os faniscos de poeira.

quando uma delas se rompe, lamentamos o que deveríamos ter feito.
nos invade o remorso e, atrasados, nos apressamos em corrigir o desleixo.
para voltar a tocar.
com carinho, substituímos as cordas todas, já velhas e surradas.
demora um pouco para que as novas se ajustem; que possam soar sis, mis ou sóis.
devagarinho, se aconchegam nas casas, conhecem os trastes e assumem acorde aveludado.

o violão continua; o mesmo corpo, a mesma acústica, a mesma alma sonora.
mas com as comas todas no lugar.


é que no peito dos desafinados
no fundo do peito, bate calado
é que no peito dos desafinados também bate um coração.

sábado, 25 de agosto de 2012

estalinho

A verdade é que, naquele selinho apressado, nasceu a vontade de te levar comigo pela vida inteira. De tão breve (e desesperado), foi paixão que não tinha mais jeito de guardar. Amor confessado num estalinho, que me invadiu e me cobre de risos largos até hoje. Tantos outros beijos mudos, roucos, (às vezes cansados de lágrimas), nos juntaram durante todo esse tempo. Você é minha sexta-feira, daquelas em que as tardes se estendiam moucas pelo quarto quente (poente) e era sempre cedo demais para ir embora. É o meu aconchego na hora de dormir, as canções balançadas na rede e a despretensão total de pijamas. É o meu banho de mar engraçado, casado com a mulher que gosta de mandar. O meu poder chorar por qualquer coisa e o meu poder ouvir que fico linda quando choro. Você é o ouvido e o ombro que eu tenho sempre comigo, o colo onde eu posso debruçar meus medos todos, meus anseios, minhas verdades. E eu só posso agradecer, todos os dias, pelo encontro dos nossos caminhos. Às vezes tortos, atrapalhados, mas sempre nossos. Você é minha vida, minha família, meu amor sincero, de um bem-querer desmedido. E infinito, que basta olhar pro teu rosto para eu me vestir, de novo, com o sorriso enorme do nosso primeiro beijo.

sábado, 11 de agosto de 2012

crisântemos de cabeceira

era quinta-feira.
o coração amargava dois mil e trezentos quilômetros e dez dias de distância. e remoía, magoado, a gritaria digitada do dia anterior.

- eu preciso ir no banheiro, pelo amor de deus - implorou um amigo no banco de trás.
dois segundos antes, berrava a canção que tocava no rádio.

na esquina, o carro parado na calçada, uma banca de flores.
desci apressada, com a carteira na mão, para escolher um raminho no meiotempo de uma mijada.

a noite se apressava em chegar e o homem, em fim de turno, recolhia as ramagens.
logo na frente, restavam flores do campo opacas, já cansadas do sol.

- o senhor não tem mais nenhuma?
- tenho - e se virou em menção de abrir o baú.
antes que me mostrasse qualquer coisa, atropelei:
- tem girassol?
- tenho - e pegou um arranjo já montado, bem brega, com quatro flores.
- quanto é?
- quinze.

tentei barganhar, mas ele resistiu.
explicou que comprava o arranjo por doze e que, por isso, aquele era o preço mesmo.
fiquei meio emburrada com a desculpa, e eu nem queria girassol. só queria acabar com aquilo logo e tentar acordar, na sexta-feira, com um tanto mais de cor.

- e o que é que o senhor tem de mais baratinho, hein?
conseguiu abrir o baú, deixando escapar uma brisa doce, e respondeu:
- tenho esses crisântemos - e havia muitos, brancos e amarelos.
- e quanto é?
- um real o raminho.
- me dê dois. dos mais bonitos, viu?

pegou as que estavam na frente, me perguntou de que tamanho eu queria o caule e as embrulhou num pedaço de plástico.
voltei pro carro e o amigo aliviado já embolava outras melodias.

reclamei, como de costume.
- absurdo o preço dos girassóis.
e segui calada o resto do caminho.

tive dificuldade, como de costume, para encontrar as chaves na bolsa.
a casa estava escura e sunny estava na porta, à espera nervosa de que alguém chegasse para fazer companhia. não dei atenção.

como de costume, joguei a bolsa na cama e tirei os sapatos. quis dormir logo.
fechei os olhos e, com tudo rodando, lembrei das flores.
levantei tonta e, na cozinha, enfiei os crisântemos numa tulipa.

coloquei água da torneira no copo de cerveja e larguei as flores repousando na cabeceira da cama.
sabia que, no dia seguinte, teria que jogá-las fora.
então pouco importava.

já se passaram dez dias.
e os crisântemos não desbotaram o amarelo.
continuam enfeitando, com a robustez delicada de suas coisinhas miúdas, as fotos empoeiradas dos porta-retratos.
como se já não fossem mortas, tiram o que precisam de sua própria água, nutrida com seu próprio gosto.

é que não há intempérie, ou tempo passado, que murche o que há vivo por dentro.
o que há de ser perene sobrevive, em insolente teimosia, às pálpebras de neblina.

já se passaram dez dias.
e não vi cair uma pétala sequer de flor.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

amai - ou o décimo terceiro soneto.

de madrugada, acordei ao pontual soar da campainha, e tentei ver o céu pela brecha da cortina.
procurei, com os olhos semicerrados, algum prenúncio de dia para me livrar dos lençóis.
não havia raio de sol sequer para fazer nascer cor
e o negro do asfalto se confundia com o denso firmamento.
afastei um pouco mais o pano com os pés e, em meio ao breu, fizeram-se notar duas fúlgidas estrelas, senhoras num céu que não tinha lua.
e apenas duas.

pensei nos meus filhos que, quando vierem a existir, talvez não conheçam estrelas.
nos animadores de desenho que pintarão os céus todos de preto, sem morada para os grandes reis do passado ou trilha para os tapetes voadores.
nos namorados que, deitados na areia, não terão cartilha iluminada para desenhar destinos.

ofuscadas pelo nosso brilho - artificial e excessivo -, se apagam.
as mais antigas já sabem: há tempos deixaram de protagonizar sonhos e poemas.
ruíram os natos marujos, que desvendavam, em suas cintilâncias, os mistérios do caminho.
e os românticos, que as prometiam em presentes de eternidade.

tanto já sabem que, tais quais as do cinema, preferem se esconder enquanto caem.
quem diria que morrer, um dia, foi instante de glória.
preparava-se o mais radiante véu e, no derradeiro fulgor, eram riscadas palavras de esperança.



a única coisa em que consigo pensar, e espero que dela me lembre quando chegar a hora, é que, se um dia eu voltar a ver uma estrela cadente, eu possa pedir que as nossas crianças conheçam momentos de apagar as luzes.

e que estejam mais perto do céu do que nós.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

hoje é sexta. e tanto faz. como todos os outros dias que. há tempos. tanto fazem. começam. terminam. e. no todo. tanto faz. se fazem ou não algum sentido.

terça-feira, 3 de abril de 2012

re-cita, vai.

Essa mania nasceu numa época em que ainda mal sabíamos quem éramos. Só nos sentíamos ligados, pulsantes, um ao lado do outro - com cócegas espalhadas por pernas, pescoço e barriga. Deitados na cama, passávamos madrugadas acordados, rindo, conversando sobre coisas que eu nem lembro mais o que. Embolados nos lençóis - com a meia-luz do abajur clareando de leve o quarto bagunçado -, cantávamos amores sem vergonha. Em um desses encontros de sábado, me disseste com convicção; a mão enfiada nos meus cabelos assanhados:

- Eu sei recitar poesia.

Olhei com cara de quem nem leva fé em talento de conquistador barato. Mas foste emendando um trecho no outro, rabo de estrofe em verso de introdução e, aos poucos, encenando poesias baixinho. A maioria de amor, apaixonadas. E nem para mim decoradas. Mas foi tom de voz, sotaque, ritmo lento e timbre adoçado. E aí, como quem se sente musa inspiradora, me derreti entre o teu braço e tuas costelas, que tanto me serviram de travesseiro. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ê vida vida amor brincadeira à vera

Com malabares e bolinhas se embaralhando habilidosos, amigos se divertiam em contos circenses. As risadas e o domingo faziam o treino descontraído, mas concentrado, parecer com brincadeira.

Uma menina bonita, dos cabelos curtinhos e blusa florida, levava no rosto um sorriso de mostrar todos os dentes. Os cabelos se balançavam com a brisa leve que refrescava o parque vez por outra, e o shortinho branco deixava à mostra um hematoma simpático no joelho. Dominava os pinos com habilidade e carisma desconcertantes, de deixar os olhos fixos e a boca um pouco aberta, enquanto os lançava alto no céu. 

Outra garota, que não brincava de circo, passou perto dela, sem chamar atenção; só para se aproximar. Fazendo os malabares se desencontrarem do corpo em um gesto de pausa, a de blusa florida esticou ainda mais o sorriso. E roubou-lhe um beijo bonito, de uma doçura que só um encontro bem grato pode oferecer. Por poucos segundos mantiveram, ali, em meio ao verde do parque, os lábios colados uns aos outros. 

Ao redor, casais continuaram a caminhar de mãos dadas, crianças cresciam seus castelos de areia, senhorinhas tricotavam fofocas nos bancos de madeira pintados de azul. Uma mulher gorda, de roupas negras, engessou uma cara de desgosto numa boca torta e sobrancelhas desalinhadas. E, no breve instante de um beijo, o estranhamento soaria como ofensa a quem, num fim de tarde, aproveitava a simplicidade de amar.



só que os sorrisos continuaram pintando lábios, agora molhados, tal qual tinta em rosto de palhaço, que exala alegria permanente. com os olhos fechados, elas nem puderam ver que, em algum lugar, havia alguém carregando carrancas sobre a face

sábado, 31 de março de 2012

duzentas palavras.

Destino a Felipe Resk de Queiroz, nascido em 17/05/1991, natural do Recife, meu sincero reconhecimento à sua superioridade intelectual. Nós, que tanto disputamos acertos e pagamos para ver nossas certezas se consagrarem, aceitamos mais um desafio. Desta vez, caro seria o pagamento: escrever, em duzentas palavras, a resignação perante a supremacia intelectual do outro - com a devida divulgação nas redes sociais. Pois bem. Venho, por meio desta curta explanação, admitir o quanto o referido rapaz é surpreendentemente audacioso. Do alto de sua inteligência, foi capaz de me ampliar a mente para possibilidades antes ignoradas. Me mostrou, com sua sabedoria, a importância de ser mais racional na vida. De saber esperar. E ouvir. Foi quem me ensinou, mesmo com dificuldades - devido às minhas limitações epistemológicas -, a ser um pouco mais humana. Gostaria de agradecer, prezado Felipe, por me permitir a convivência. Não fosse esse encontro, talvez eu nunca tivesse aprendido a ser um tanto menos orgulhosa. Deves estar pensando que não houve nada que eu tenha, de fato, aprendido contigo, tamanhas as divergências entre nós dois. Perdoa, meu bem, a inferioridade. Grande parte do que eu vou carregar comigo sempre, em cabeça e coração, nasceu ao teu lado.




No mínimo, posso falar sobre ter aprendido, mesmo que mal, a soprar "Eu sei que vou te amar" na flauta doce. Aprendi a ficar calada na torcida adversária dos estádios de futebol, mesmo que levando uns beliscões de vez em quando. Aprendi a fritar ovo com creme de leite e orégano, adicionando qualquer coisa de molho barbecue para dar um charminho. Não aprendi a fazer pipoca de panela, é verdade, muito menos o milkshake de Ovomaltine. Tive que aprender a gostar muito de filé à parmegiana, além de precisar aprender a acordar e ficar quieta, esperando teu sono se completar. Queria ter aprendido, galego, a ser um pouco menos azeda. A reclamar menos e a reconhecer mais os teus atos. Queria ter aprendido, também, a invadir menos os espaços que não me cabiam e a respeitar mais tuas vontades. Mas, burra que sou, pouco fiz para aprender qualquer coisa. Desculpa toda a estupidez. Quem sabe, um dia, eu possa ter um pouco do teu raciocínio afiado, que tanto me faz falta nos tabuleiros de dama e xadrez.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre entender a si. E ao outro.

Ou sobre nunca entendermos nada.




Textos de Jean Baudrillard e Fernando Pessoa, respectivamente, narrados por Antônio Abujamra ao final do programa Provocações.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

imóveis.

e aí a gente se vê perdido nessa cidade sem ouvido pra escutar quem tem o que dizer. num recife preso, parado, entalado nos engarrafamentos do centro. cada qual encerrado num carro, empacado, desta vez, por quem não tem liberdade de trânsito. e é sempre tão confortável reclamar do tráfego, lento, com hálito de ar condicionado, afundado em banco acolchoado, isolado – onde caberiam mais quatro. sentados. aumenta o volume do som, cidadão, pra ver se abafa os gritos que esbarram nas janelas.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

a de versativa

Eu espero estar por perto no dia em que você decidir promover as pazes entre seus miolos, átrios e ventrículos. E que, enfim, esquecendo-se de embolar nos versos de "eu te amo, mas..." resmungados, se inunde da vontade de sentir, apenas, afastando incertezas e paranoias. O dia em que, despido de qualquer porém, você saiba dizer baixinho, ao pé do ouvido, um "eu te amo" assim, sem ponto final, sem vírgula ou reticência. Como se falasse para deixar surgir, logo depois, o desejo de repetir uma vez, e mais outra, e mais outra, aquilo que ressoa por dentro. Sussurrando, acreditar que libertou num grito, aos quatro ventos, suas palavras de amor.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Suspiro.

Afagar as vontades do corpo é desafogar as agonias da alma. Permitir que as dores se esvaiam, em jatos de choro (e gemidos), por entre as pernas.

Depois, calam-se. E dormem. Enquanto esquecem que, ao acordar, não haverá outros lençóis, além dos seus, para arrumar sobre a cama.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

só pra dizer o que eu sei

sem querer dizer muita coisa ou sentir muita coisa ou saber muita coisa, só quero dizer que, apesar de sentir muito e de saber que sinto muito, e de sentir que sei muito o que digo pouco, pouco importa se eu cheguei a dizer muito ou saber muito o que eu sentia tanto. só sei que, se eu pudesse, dizia o tempo todo que o que eu sinto o tempo todo e o que eu sei o tempo todo é que, se desse, eu ficava era calada, de boca e de pensamento, só pra sobrar espaço pra sentir muito, o tempo todo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sobre sementes

Plantar é, num ato puro de dedicação, respeitar o tempo. É lançar ao solo, nem sempre tão fértil, a semente frágil, sensível, mas rígida, e misteriosa a ponto de se permitir secar com os segredos todos guardados se não encontrar razão para vir à luz. Para vê-la brotar, é preciso cuidado e, acima de tudo, paciência; a demora é tanta que se pode chegar a crer que haverá de ter sido tudo em vão. Ela continua lá, repousando sob a terra, mesmo regada à água fresca, luzes do dia e de fim de tarde e doses, daquele que dá sem receber em troca, de esperança. E segue aparentemente seca, impenetrável, calando envolta de húmus. É que são desconfiadas, as sementes. Precisam que se prove o valor de se entregar à metamorfose, de morrer para nascer outra. Necessitam das demonstrações de carinho, de cuidado, de que invistam nelas mesmo sem saber se virão, um dia, a se tornar alguma coisa. De repente, num despretensioso despertar de talinho verde, desabrocha. Dá, como que sorrindo, a prova de ter estado viva durante todo o tempo. E, ainda sem raiz, se arrisca miúda sobre o solo. Precisa de toda proteção contra as chuvas fortes, os pássaros ou as formigas. Mas sob a atenção de duas mãos, toma corpo, e se vê cada vez mais ereta, confiante, desvelando talos, folhas e ramagens floridas, por puro prazer. Aos poucos, ganha força e nem precisa mais de tantos cuidados. Simplesmente, cresce, e se fazendo notar grandiosa, abriga, em sua sombra, nada menos que a calmaria.

 

Mas quanta incompreensão dos impacientes. As sementes, na verdade, se deixam tocar. Esperam, por natureza, o encontro com a terra, anseiam por sentir a casca amolecer em contato com a água. Absorvem todo zelo, amor, toda incondicionalidade, e, daí, se envolvem num desejo puro de transformação, num entregar-se desmedido e bravio. Discretas, reúnem tudo quanto podem e se desenvolvem depressa, esperando poder vencer a terra e se mostrarem lindas, crescidas, antes de o jardineiro ir embora. E, de surpresa, num dia qualquer, se exibem verdes e, ainda que pequenas e vulneráveis, representam tudo o que se pode chamar de amor.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

(Des)apego.

É que acordei com você deitado ao meu lado, sorrindo com meias-luas nos olhos. Assim, de surpresa, porque, até onde eu lembrava, tinha te colocado para fora antes de me deitar. Mas você insiste em se manter por perto, quase sempre à noite, quando já me cansei do dia mal vivido.

Saí da cama angustiada e vesti de qualquer jeito a camisola branco-transparente, já gasta, que repousava sobre as costas da poltrona. Arrependida por ter te arranjando espaço, mais uma vez, na cama que um dia foi nossa, grito. Me irrito, reclamo da sua volta insistente, abusada, brigo para te colocar para fora. Abro a porta da rua e te despacho, lembrando de me preocupar com as trancas, que já troquei.

A casa é grande, atolada de mobília, e tinha as paredes todas coloridas, mas decidi, há um tempo, pintar tudo de branco. As janelas enormes, que vão de um canto a outro da sala comprida, eram o que mais gostávamos, e, observando as metamorfoses do céu, passávamos a maior parte do tempo deitados na rede. Acabei comprando cortinas pesadas, de parede inteira, para ver se, escondendo o jardim lá fora, restava menos do seu gosto aqui dentro.

Desvencilho-me das portas e, andando até a cozinha, dou um nó nos cabelos ainda longos. Lavo o rosto na pia, afogando o pescoço, as bochechas. Encho três dedos d’água num copo de vidro e bebo um gole, deixando-a escorrer fria na garganta. Derramo todo o resto no ralo, enquanto me deixo esparramar pelo chão de cerâmica, sentindo o refluxo da água nos olhos.

Por mais uma manhã, me vejo repetir a exaustiva rotina de juntar suas coisas, espalhadas por todo canto, antes de começar o dia. Não tinha reparado na bagunça quando saí do quarto logo cedo, mas, agora, já está tudo fora do lugar. Seus livros e discos pelo chão, suas roupas e cuecas sujas e toalhas molhadas jogadas na cama. Quanto mais eu arrumo, limpo, mais você teima em tomar conta de tudo.

E, como que de propósito, é você que me faz companhia quando estou só, que me coloca na cama e alisa meus cabelos até o sono chegar. Que protege meus sonhos e me desperta cedinho, num susto, com um beijo úmido e sem estalo nos lábios. Bagunça minha casa inteira de madrugada, para que ela esteja, ao despertar, um pouco menos ranzinza. E, por mais que eu insista, brigue, esperneie, é quem continua a voltar, sorrindo, de surpresa, como quem diz: "Meu bem, eu estive aqui o tempo todo".

E aí, dói. Ao me perceber aqui, sentada num colchão amolecido, tentando encaixotar teus sapatos. Logo você, meu bem, que me mantinha enrolada em teus braços mesmo quando já estava tarde para levantar. Logo você, que só de estar por perto me fazia bem, tendo que ser varrido daqui. Dói ter que te pedir que se vá, que ande logo e que, se puder, não me lance outro olhar de despedida. Não entendo por que não se vai de vez, desperdiça a chance de escapar. Logo você, que tanto se queixou das nossas vidraças embaçadas; e do meu falar demais sobre nada ou sobre nós.

Continuo quebrando porta-retratos, queimando cartas, arrancando bilhetes das paredes. Sem me dar conta, provoco uma autossabotagem contra a qual o corpo reage com autoajuda, se negando a abrir mão do que afaga. Cada vez que tento te apagar, vou apagando a mim também. E então, nesse processo incessante de te fazer ir embora, vou me perdendo pelos cômodos vazios.

Levanto da cama, deixando os sapatos, os perfumes e os versos de lado. Recolho os cacos do chão e espalho os meus livros e discos e tubos de tinta pelo quarto inteiro, sem me preocupar com pincéis, lençóis ou cores descombinadas. Dispo-me da roupa, das tampas, dos elásticos de cabelo e das bijuterias presas nas orelhas. Com os pés, tinjo despretensiosamente o assoalho, que vai se manchando rosa, azul, amarelo, e escalando o guarda-roupa, desço umas caixas antigas.

Separo umas receitas guardadas, me enfio na cozinha, melada mesmo de tinta, e preparo o almoço. Lavo a louça mais bonita, as taças de cristal e desarrolho um vinho antigo, presente de aniversário de um ano qualquer. Como sentada no sofá da sala e, com a tinta já seca no corpo, me engraço pela sala apática.

Cansada de noites mal dormidas, arranjo um cantinho confortável na cama. E sem me preocupar com invasões, fugas ou assaltos, durmo com a porta encostada. Então, comigo, assim, disposta a dormir até mais tarde, você se levanta da cama com todo o cuidado para não me acordar. Arruma todas as suas coisas e, em vez de me beijar os lábios, deixa um bilhete a repousar no travesseiro: “Faz um dia lindo lá fora, minha flor”.
 



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Entre as pipas, o concreto

Do alto do Viaduto da Ferradura, em Porta Larga, via-se a paisagem cinza ser entrecortada por cores. Sobre as avenidas engarrafadas, deslizavam duas pipas, tranquilas, no céu de fim de tarde recifense. Amarela e vermelha, se cruzavam, subiam, desciam, competindo por um cantinho de destaque lá no alto. No chão, trabalhadores se encarregavam de substituir os canteiros verdes que dividem as vias por asfalto.

Um homem, atarefado, carregava um grande isopor nas costas. Caminhando por entre os carros, vendia bebidas aos motoristas. Fazia calor e o mormaço, agravado pela quentura do sol que tardava em se pôr, queimava. Nos intervalos do serviço, conversava, mesmo que de longe, com seus dois meninos. Um mais alto, cabeludo, outro mais novo, sem camisa. Brincavam descalços sob o viaduto, compenetrados, sem tirar os olhos do céu.

Os pontos coloridos que tremeluziam lá em cima sorriam do tédio de concreto. Corriam e, ao nos observar empacados, posavam. Livres, deixavam as rabiolas riscarem as zombarias que quisessem no fundo azul. Se esbaldavam no céu que não tinham que dividir nem com as nuvens, nem com os telhados, ou com os fios de eletricidade. E, por um momento, pareciam rir de saudade matada. Aproveitavam com graça o espaço que tinham como se soubessem que, há muito, já não lhes pertencia mais.

Incômoda a sensação de estranhar a brincadeira de rua. Parece que se foi, de vez, o tempo em que assistir às crianças compondo a paisagem era presenciar a inocência. Que a diversão dos mais novos surgia nas calçadas, que a felicidade se encontrava na esquina. Construir os próprios brinquedos, sujar os pés, as mãos e as roupas e se entristecer pelo sereno que insistia em chegar de surpresa era o que inspirava as tardes, assim, de primavera.

Foi-se o tempo em que a rua era o lugar das crianças. De todas elas. E que observá-las ao ar livre, desocupadas e encardidas, não nos fazia sentir medo, pena ou achar que não há oportunidade para que elas possam ser melhores do que já são. Que era permitido (e incentivado) que corressem o quanto quisessem, jogassem bola, cobrissem os corpos de areia e de lama. A imaginação corria solta e, para a diversão, ainda havia tempo.

O futuro, que nessa fase da vida significa apenas continuar a brincadeira no dia seguinte, se materializa nas grades de horário. Rígidas, calculadas e, quem diria!, realizáveis. A ingenuidade dos pequenos vai se perdendo sufocada. Vivem enclausuradas e, entre a falta de quintais e a necessidade de se tornar gente, tornam-se adultas. Antes da hora. E salvas do contato com a rua lá fora. O espaço livre para a imaginação se esvai cedinho e, antes do pôr-do-sol, já se acabaram, de cansaço, os dias.

No dia 14 de setembro deste ano, quarta-feira, um Vinícius de oito anos empinava pipa. Morava no bairro de Nova Descoberta, na Zona Norte do Recife, e, por volta do meio-dia, saiu pra brincar. Sozinho mesmo, fazia subir seu pedaço enfeitado de papel. Mas, com a linha na mão, controlava o caminho que o papagaio percorria lá no alto. Desenhava o que sonhava em forma de dança no céu, mas permitindo que o vento, companheiro, sonhasse por ele também.

Só que as pipas caem. E, nem sempre, são fáceis de recuperar. A do menino decidiu invadir, libertina e cheia de vontade que era, um terreno perto dali. E lá foi o garoto escalar as paredes, sem hesitar, para conquistar o brinquedo de volta. Temendo assaltos à propriedade, seu dono, assim pensava, a estava protegendo com cercas elétricas sobre os muros.

E meninos caem. Se machucam, ralam o joelho, levam ponto no queixo. Como as pipas, se empinam corajosos, se deixam voar e, por simplesmente viver, são livres. Vinícius, quando chegasse o entardecer, não voltaria chateado com o danado sereno. Ao dono da casa, nada restava senão a necessidade de se eximir de culpa. Lançou, como quem lava as mãos, o corpo já inerte no terreno que cabe ao outro. E lá se vão nossas crianças, esbarrando nas barreiras impostas à imaginação, correndo atrás de pipas que insistem em não decolar.

sábado, 16 de julho de 2011

Virtuose, né.

Quem sabe se admitíssemos nossa animalidade como natural, não seríamos mais felizes. Nos cobraríamos (e sofreríamos) menos, abstendo-nos de toda a autorrepressão que nos aleija.

Dizem que o que nos diferencia dos outros animais (e que, ora!, nos faz mais evoluídos) é a capacidade de controlar os instintos. Agir calculadamente, pensar por meio de símbolos, com a razão se sobrepondo à emoção, com as obrigações à frente dos prazeres. Na verdade, com nosso labor servindo de caminho para, por merecimento, alcançá-los. Os prazeres são as nossas recompensas – nunca gratuitas e sempre caras demais para se ter tanto quanto é de desejo.

E, caramba!, como a vida social é facilitada deste jeito. A autoregulação naturalizada é inerente aos seres bem treinados, educadíssimos, e, graças a isso, também mais evoluídos que os homens com trejeitos animalescos. O autocontrole deve se apresentar, categoricamente, em tudo o que se faz na vida. Nos horários para dormir, para acordar, para comer. Nos modos de se vestir, com sapatos e trajes desconfortáveis, de sentar, com as pernas a esmagar e esconder o sexo, de transar, com todos os passos e gestos ensaiados para demonstrar boa performance.

Aqueles indivíduos, se é que se pode nomeá-los assim, que se permitem agir por impulso estão tão inadequados às normas de sociabilidade que é mais seguro não tê-los por perto. E se nem eles próprios percebem a necessidade de se domarem, é porque ou já estão loucos ou são pobres demais de educação.

A cultura, já diziam, é a forma de expressar esta razão, é a manifestação da habilidade de ser homem. A natureza, como o que é bruto, de nascença, é o avesso da cultura, é o que precisa ser anulado para que a outra possa existir. Assim mesmo, em dicotomia.

E eu, que comecei esse texto para tratar de outra coisa. Para falar de arte, de poesia, e da distância que elas exigem dos seres destreinados. Arte não é para qualquer um, meu caro. Nem para ver, muito menos para fazer. Poesia não se escreve com saliva, escarro, sangue, lágrimas ou qualquer resto de excreta. Todo o preciosismo que a arte requer está distante demais dos impulsos de vomitar versos. De assaltos de inspiração. Algum gênio desses disse que nada é tão simples, que é preciso 99% de transpiração para se criar alguma coisa e, voilà!, deixe a arte para quem sabe o que fazer com ela.

O mestre Carlos Drummond de Andrade já alertava: “Não faças poesia com o corpo (...) o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. Aprenda a lapidar, usar metáforas, perífrases, circunlóquios. Tenha tato para escolher as melhores palavras (isto é, dentre as que existem, não dentre as que você conhece) para estar de acordo com os critérios de legitimação. Mexa, remexa, deixe a estrofe na gaveta e contorça os verbos mais um pouco. Após muito suor (que nunca haverá de pingar no papel), talvez se tenha um poema. Isto é, se os entendidos, enfim, o aceitarem como tal.

E eu nem falei de pureza.