domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tenho aversão à subjetividade.

Poesia é sentimento, expressão de uma emoção. 
Carlos Drummond de Andrade.


“Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a abstrata. As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes poeticamente do que tristeza, melancolia ou saudade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade – mas não diretamente. O poeta não tem que dizer 'eu estou triste'. O que ele tem é de encontrar uma imagem que dê ideia de tristeza ou do estado de espírito – seja ele qual for – por meio de palavras concretas – e não simplesmente se confessando, na base do 'eu estou triste'. Minha definição de emoção não é nada de especial. É o que todos chamam de 'emoção'. O que acontece é que me recuso a explorar essa coisa diretamente. O interesse do poeta não é descrever suas emoções. É criar emoções, é criar um objeto – se é um poeta, um poema; se é pintor, um quadro – que provoque emoções no espectador. Mas não explorar nem descrever a própria emoção. Quando digo que sou contra a emoção é exatamente nesse sentido: o de usar a minha emoção para fazer, com ela, uma obra, descrevê-la primariamente e construir, com ela, um poema”.

João Cabral de Melo Neto.


Trecho da entrevista concedida ao repórter Geneton Moraes Neto no apartamento em que o poeta morava, na Praia do Flamengo, Rio de Janeiro. O depoimento foi publicado no livro "Dossiê Drummond", escrito por Geneton, em contraposição à visão de Carlos Drummond de Andrade sobre o fazer poético.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Só.

"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. 

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre".


Vinícius de Moraes.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

De maré.

– Quem mandou se casar com uma mulher que gosta de mandar? – questionou ela, com ar forçado de superioridade. Encenava, gostava do poder que conferia a si mesma, da cara-de-pau em se dizer dona de alguém. Dona dele, especialmente, que insistia em repetir que "o amor é, antes de tudo, exercício de liberdade". Adorava se fazer ditadora, poderosa, só pelo prazer da implicância. E nem se dera conta do deslize proferido.

Ela se sabia incapaz de cuidar de si mesma – não admitiria jamais. No fundo, almejava a independência (e se vestia com ela) para poder escolher depender de alguém. Menina.

Ele, desconcertado, pego de surpresa, levou meio-riso à boca. Achou engraçado o tom, os trejeitos, e nem ligou para a intenção cabresta da pergunta. Triunfou ao perceber que não deixaria a gafe passar em branco, logo quando esta escapuliu. Viviam assim, na brincadeira, como se disputando alguma coisa, tentando ver quem levava a melhor.

Ele tinha por costume ficar olhando para ela,  imaginando o que  suas palavras não diziam.  Ela, que nunca falava sem pensar, pelo visto, tinha naturalizado a fantasia.

Curvou a sobrancelha, franziu a testa e, com pose de quem não entendeu, perguntou de volta, para encabulá-la:

– E eu já me casei, foi? – sorria, agora, com os dentes todos (e são muitos). Da ingenuidade.  De saber que a veria corar, desarmada.

A namorada, por um segundo, ficou sem entender a réplica. Mas logo riu, envergonhada, da sentença espontânea, traduzida em vacilo. Traída pelo reflexo, ria do que compartilhara, da contradição, da exposição.

Isso lá é coisa que se diga.
Estremece a autoridade.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sem manto e sem epitáfio.

Só falta deixar a terra correr por entre os dedos. Umedecida de lágrimas, talvez, mas nada mais. Resta assistir ao remate de camarote, a sete palmos de distância, com o semblante marcado de agonia por não entender o final desgraçado. Não há palavra sequer cravada no mármore.

domingo, 28 de novembro de 2010

O que quer que seja.

Tem gente que gruda, se incrusta no pensar e no ser. Sem trégua. Que remexe o que estava quieto, mexe no que nem se pressupunha existir. Não sossega. Alimenta os tormentos causados por saudade aguda, crônica, que nem tem tempo de vir. E por fome insaciável. Que tem o dom de fazer crescer amor por simplesmente amar.

"Desapossesse-se ou loucomplete-se", alertou Leminski.
O conselho veio tarde.
Ou fingi que não ouvi.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Tom.

Musiquemos a vida. Para entoar palavras de amor, inventar melodias. Afinar sonhos e passos, descompassar risadas, inspirar disritmias. Em meio a breves e mínimas, fazer dos contra-tempos verdadeiras poesias.

domingo, 3 de outubro de 2010

Aos números.

Eu só não queria te sentir tão comedido, como quem mensura o amor que pode dar. O amor que é saudável dar para se manter num lugar seguro e de paixão ao mesmo tempo. Como quem quisesse medir amor por já ter sofrido de amar demais.

Não sei pra que se preservar tanto. Toda a falta de preservação que nos trouxe até aqui não combina com essa falta de entrega. Não quero sentir como se estivéssemos perdidos num campo minado, precisando sondar minuciosamente o chão em que pisamos. Como é de costume fazer com tudo que se desconhece.

Tanta cautela nem sempre (quase nunca) finda em proteção - talvez só retarde o perigo. O andar cauteloso, desconfiado, precavido, corrobora para alimentar um medo não tão sem nexo, mas completamente limitante. Tanto receio nos deixa a andar devagar demais; não quero perder tempo imaginando se vamos dar o passo certo. O risco de dar errado aumenta com a espera.

Nem tudo está sob controle, nem teria graça se estivesse.
Na verdade, quase nada está.